A MELHOR CATEQUESE SOBRE A EUCARISTIA

"A MELHOR CATEQUESE SOBRE A EUCARISTIA , É A EUCARISTIA BEM CELEBRADA"
PAPA BENTO XVI



 

“A melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada”, assegura Bento XVI, ao exortar toda a Igreja a celebrá-la com toda a dignidade.O Pontífice deu esta indicação central aos participantes do congresso da diocese de Roma, que começou no dia 15 de junho, na Basílica de São João de Latrão, catedral do bispo da Cidade Eterna. “A Santa Missa, celebrada com respeito pelas normas litúrgicas e com um uso adequado da riqueza dos sinais e gestos, favorece e promove o crescimento da fé eucarística”, garantiu o Papa. “Na celebração eucarística, não inventamos algo, e sim entramos em uma realidade que nos precede; mais ainda, ela abarca o céu e a terra e, portanto, também o passado, o futuro e o presente.” “Esta abertura universal, este encontro com todos os filhos e filhas de Deus, é a grandeza da Eucaristia: saímos ao encontro da realidade de Deus presente no corpo e no sangue do Ressuscitado entre nós.” Portanto, “as prescrições litúrgicas ditadas pela Igreja não são algo exterior, mas expressam concretamente esta realidade da revelação do corpo e sangue de Cristo e, desta forma, a oração revela a fé”. Segundo o Bispo de Roma, “é necessário que, na liturgia, apareça de forma clara a dimensão transcendente, a dimensão do mistério do encontro com o Divino, que ilumina e eleva também a dimensão ‘horizontal’, isto é, o laço de comunhão e de solidariedade que se dá entre os que pertencem à Igreja”. De fato, “quando prevalece esta última, não se compreende plenamente a beleza, a profundidade e a importância do mistério celebrado”. O Papa deu este conselho aos fiéis de Roma, em particular aos seus sacerdotes: “Celebrai os divinos mistérios com uma participação interior intensa, para que os homens e mulheres da nossa cidade possam santificar-se, entrar em contato com Deus, verdade absoluta e amor eterno”. E exortou os católicos de Roma a “prestar mais atenção, entre outras coisas com grupos litúrgicos, à preparação e celebração da Eucaristia, para que os que participam possam encontrar o Senhor. Cristo Ressuscitado se faz presente em nosso hoje e nos reúne ao seu redor”. [PAPA BENTO XVI , EM SEU DISCURSO AO CONGRESSO DA DIOCESE DE ROMA]. Na Santa Missa temos um Deus que se imola, um Deus que é imolado. Que cúmulo de mistérios! Entretanto, importa relembrar que o sacrifício da Missa é de valor infinito, para que ninguém se escuse de não ter encontrado o suficiente para si. É um mar inexaurível de graças e benefícios. Só quem bebe deste mar agrada a Deus; só quem assiste à santa Missa presta a Deus o sacrifício por ele aceito. Afora o sacrifício da Missa, nenhum outro pode ser agradável a Deus e proveitoso ao homem e tão proveitoso, que os santos do céu participam da sua glória, as almas do purgatório e os vivos da terra gozam superabundantemente dos seus benefícios. É que o sacrifício da Missa constitui o único holocausto verdadeiramente digno do Senhor, em que se sacrifica o Cristo sempre vivo para interceder em nosso favor. Aqui, como sobre a cruz, o Cristo se constituiu o vínculo vivo que nos une a Deus. No santo sacrifício da Missa, temos o ato em volta do qual gravita e dele se irradia o próprio sacrifício da Redenção. Sim, na santa Missa, aquele mesmo sacrifício, oferecido um dia sobre o Calvário, assume a condição como de coisa que ocupa a circunferência, como de um satélite gravitando em volta do sol, como de uma fonte viva que deságua no oceano. A Santa Missa é o centro, é o sol e é o oceano onde se concentra o próprio sacrifício do Calvário, ou melhor, a santa Missa torna continuamente presente o sacrifício do Calvário que é eterno, e ao mesmo tempo perpetuado no tempo, no céu perante Deus e na terra entre os homens; é o mistério da consumação de todos os desígnios de Deus, realizado um dia e renovado por todos os séculos até ao fim do mundo. É tendo presente o exposto que o sacerdote deve oferecer o tremendo ato religioso. Oxalá se aproximasse sempre para o futuro da ara sagrada do Senhor com estas disposições de alma que o dominam ao presente! Quem dera, pudesse comunicar e, comunicadas, conservar estas mesmas santas e invejáveis disposições nas almas de todos os assistentes ao santo e inefável sacrifício da Missa! Quisera, sim, que todos os cristãos se persuadissem de vez por todas ser o santo sacrifício da Missa o ato de religião mais necessário! - [LIDVINO SANTINI , A SANTA MISSA NA HISTÓRIA E NA MÍSTICA]. O Concílio Vaticano II indicou-nos, como uma idéia fundamental para a configuração da Liturgia, a palavra participatio actuosa - participação ativa - de todos no "Opus Dei", isto é, nos acontecimentos da missa. Com toda razão, pois o Catecismo da Igreja Católica chama atenção para o significado da palavra, que é serviço comum, relacionando-se portanto com todo o povo santo de Deus (CCC 1069). Mas em que consiste essa participação ativa? O que se faz aí? Infelizmente, o sentido dessa palavra facilmente leva a equívocos, pensando-se que se trata de um acto geral e apenas exterior, como se todos tivessem de - quanto possível tanto melhor - ver-se em acção. Contudo, a palavra "participação" (ou "ter participação"), remete para uma participação principal, na qual todos devem participar. Se quisermos descobrir de que acção se trata, então devemos indagar primeiro o que é essa actio central, na qual todos os membros da comunidade devem participar. O estudo das fontes litúrgicas proporciona-nos uma resposta que, embora a princípio nos possa parecer surpreendente, é evidente do ponto de vista dos fundamentos bíblicos básicos. (...) Nas fontes, entende-se sob actio da Liturgia a oração eucarística. A verdadeira acção litúrgica, o verdadeiro acto litúrgico, é a eucarística, tendo sido, por essa razão, designada pelos Padres como oratio. À partida, isso era correcto do ponto de vista do caráter liturgico, pois o desempenho essencial da Liturgia acontece na oratio, a qual é o seu centro e a sua forma fundamental. Posteriormente, tanto para os pagãos como para os intelectuais interpeladores, a designação da Eucaristia como oratio representava uma resposta fundamental, pois mediante ela dizia-se aos que estavam à procura: agora são substituídos os vossos animais imolados como também todos os outros sacrifícios vossos, que na realidade não satisfazem ninguém. O seu lugar foi ocupado pelo sacrifício do Verbo. Nós somos a religião espiritual, na qual se efectua, verdadeiramente, a Liturgia da Palavra, na qual já não se imolam nem carneiros nem vitelos, onde a Palavra, como representante da nossa existência, é dirigida a Deus, fundindo-se com a Palavra verídica, que é o Logos de Deus e que nos envolve na verdadeira adoração. Talvez seja útil referir que o significado original da palavra oratio não "oração" (para isso empregava-se a palavra prex), mas sim "alocução do celebrante", a qual agora, dirigindo-se a Deus na consciência de que dele promana e através dele se torna possível, alcança a sua maior dignidade. Mas até agora só aludimos ao essencial. Essa oratio - a oração eucarística, o "cânone" - é certamente mais do que apenas uma alocução, ela é actio no sentido mais elevado do termo. Pois aí acontece que a actio humana (até agora exercida pelos sacerdotes das várias religiões) recua, deixando espaço à actio divina,, que é acção de Deus. Nessa oratio, o sacerdote fala com a pessoa do Senhor - "isto é o meu corpo", "isto é o meu sangue" - sabendo que já não é ele que fala, tornando-se, em virtude do Sacramento recebido, voz de Deus, a qual agora fala e age. Essa acção de Deus, que se realiza através do discurso humano, é a "ação" verídica da qual toda a Criação está à espera: os elementos da Terra serão transubstanciados, quase arrancados da sua origem e consolidação natural, abrangidos no fundo mais fundo do seu ser e transformados no corpo e sangue do Senhor. O céu e a terra novos serão antecipados. A verdadeira "acção" litúrgica, na qual todos queremos participar, é a acção do próprio Deus. A novidade e a particularidade da Liturgia cristã é o facto de ser o próprio Deus quem age e concretiza o essencial, elevando a Criação nova, fazendo-se acessível, de modo que seja possível comunicar com Ele pessoalmente - através das coisas terrestres e dos nossos dons. Mas, como podemos participar nessa acção? Não são, Deus e Homem, totalmente incomensuráveis? Pode o Homem, finito e pecador, cooperar com Deus, infinito e Santo? Ora, ele pode, precisamente através da Encarnação de Deus que se tornou corpo, aproximando-se aqui, sempre de novo, de nós que em corpos vivemos. Todo o acontecimento da Encarnação, Cruz, Ressurreição e da Parusia se torna presente pela forma como Deus envolve o Homem na cooperação com Ele próprio. Como já vimos, na Liturgia isso manifesta-se pelas preces de aceitação que fazem parte da oratio. Certamente, o sacrifício do Logos já foi aceite para sempre. Mas nós temos de orar, a fim de ele se tornar o nosso sacrifício, a fim de nós próprios nos tornarmos, como dissemos, "conforme Logos" e, por conseguinte, verdadeiro Corpo de Cristo: é esse o objectivo. E nós temos de implorá-lo. Essa imploração em si é um caminho, um percurso da nossa existência rumo à Encarnação e Ressurreição. Nessa própria "acção", nessa aproximação oratória da participação, não há diferença entre sacerdotes e leitos. É certo que dirigir a oratio em nome da Igreja ao Senhor, falando no núcleo da oração com a pessoa de Jesus Cristo, só pode acontecer pelo poder do Sacramento. Mas a participação naquilo que nenhum homem, mas só o Senhor, pode fazer, é igual para todos. Para nós todos, vale, segundo a palavra de 1Cor 6,17, "Aquele, porém, que se une ao Senhor constitui, com Ele, um só espírito". O objetivo é que no fim seja abolida a diferença entre a actio de Cristo e a nossa. Para que haja uma única actio, que seja simultaneamente a sua e a nossa - a nossa por nos termos tornado "um corpo e um espírito" com Ele. A singularidade da Liturgia eucarística consiste em ser o próprio Deus a agir, envolvendo-nos nos seus actos. Todo o resto é, comparativamente com isto, secundário. Também as acções exteriores - a leitura, o canto, a oferta dos dons - podem, naturalmente, ser distribuídas duma maneira conveniente. Aí, há-de distiguir-se a participação na Celebração da Palavra (leitura e canto) da própria celebração sacramental. Aqui, o papel secundário das acções exteriores deveria ser claramente ressaltado. Aliás, quando vem o essencial - a oratio - a acção deve desaparecer totalmente. Como também deve evidenciar-se que, somenta a oratio é o essencial, por ser só ela que proporciona espaço para a actio de Deus. Quem compreendeu isto, entenderá facilmente que agora não se trata de olhar o sacerdote ben de ver o que ele faz, mas sim olhar juntos para o Senhor e aproximar-se dele. Hoje, alguns protagonistas, principalmente durante a preparação dos dons, desempenham quase um espectáculo teatral, facto que simplesmente ignora o essencial. Se cada acção exterior em si (no fundo são poucas, o que leva a serem geradas artificialmente), para a ser o essencial da Liturgia, de modo que essa se torne uma acção geral, então o verdadeiro teodrama da Liturgia terá mesmo falhado, para não dizer convertido numa paródia. A verdadeira educação litúrgica não pode consistir em aprender a ensaiar actividades exteriores, mas sim em conduzir para a verdadeira actio, que faz da Liturgia o que ela é; conduzir para o poder transformador de Deus, o qual, através do acontecimento litúrgico, queria transformar os Homens e o Mundo. Neste ponto, a actual educação litúrgica, tanto dos sacerdotes como dos leitos, encontra-se num estado deficitário preocupante - aqui há muito por fazer. Neste momento, a pergunta do leitor talvez seja a seguinte: e o corpo? Não será que, com a idéia do sacrifício da palavra (oratio), tudo assente apenas no Espírito? Isso poderia ser o caso na idéia pré-cristã da celebração segundo o Logos, mas não na Liturgia da Palavra personificada, a qual se nos oferece no seu corpo e no seu sangue, portanto, corporalmente, embora na forma do corpo novo do ressuscitado, o qual, permanecendo sempre verdadeiro, se nos oferece através dos sinais materiais do pão e do vinho. Isso significa que o nosso corpo, precisamente na existência corporal do nosso quotidiano, é exigido do Logos e para o Logos. Pois podendo ser a verdadeira "acção" litúrgica traduzida como acto de Deus, consequentemente, a Liturgia da Fé excede sempre o acto cultual, atingindo o quotidiano, o qual se deveria tornar "litúrgico", isto é, a missão para a transformação do mundo. Exige-se do corpo muito mais do que apenas carregar aparelhos ou coisa semelhante. O quotidiano exige todo o seu empenho. Exige-se dele que se torne apto a "ressuscitar", orientando-se para a ressurreição e para o Reino de Deus, cuja abreviatura é a seguinte: a tua vontade se faça no céu e na terra. Onde haja vontade divina, há céu, e a Terra torna-se céu. Entrar na acção de Deus, a fim de estarmos em cooperação com Ele - é isso que deve começar na Liturgia e continuar a evoluir para além dela. A Encarnação, através da cruz (a transformação da nossa vontade para a comunhão da vontade comum de Deus), deve sempre conduzir à ressurreição - para o domínio do amor, que é o Reino de Deus. O corpo deve, por assim dizer, ser "exercitado" para a ressurreição. Convém ter presente que a palavra "ascese", que já se encontra fora de moda, significa em inglês simplesmente "exercicio". Nos nossos tempos, treina-se muita coisa com muito zelo, muita persistência e renúncias - porque não se há-de treinar para Deus e o seu Reino? "Castigo o meu corpo e mantenho-o em servidão", diz Paulo (1Cor9,27) Aliás, já naquela altura, a disciplina dos desportistas servia-lhe de exemplo para o seu próprio exercício. Tal treino deveria ser uma parte essencial do quotidiano, encontrando, contudo, o seu conteúdo interior dentro da Liturgia, na sua "orientação" para Cristo ressuscitado. Para dizer mais uma vez de outra maneira, ele é o exercício para aceitar o outro na sua diferença, para chegar ao amor - o exercíco para aceitar aquele que é todo diferente, Deus, e admitir ser moldado e utilizado por Ele. A inclusão do corpo, que é o objectico da Liturgia da Palavra personificada, manifesta-se na própria Liturgia através de uma certa disciplina física, em gestos que nasceram da imposição interior eda Liturgia, evidenciando corporalmente a sua natureza. Esses gestos podem variar em pormenor nas diversas zonas culturais, mas as suas formas essenciais pertencem à cultura da Fé que nasceu do culto; em consequência, como linguagem de expressão, eles transcendem as várias zonas culturais - [FONTE : JOSEPH RATZINGER , LIVRO : "O ESPÍRITO DA LITURGIA"]


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