A primeira mulher matemática do mundo foi uma freira Católica.

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O Google Doodle nestes últimos dias parecia mais uma daquelas comemorações que ninguém conhece. Celebrou-se  o 296º aniversário de Maria Gaetana Agnesi. Sim, em princípio é mesmo desconhecida, mas esta é uma personagem que vale muito a pena conhecer.
 
Diz a Wikipedia (inglesa) que “Maria Gaetana Agnesi (1718 – 1799) foi uma matemática e filósofa italiana. Ela é conhecida por ter escrito o primeiro livro sobre cálculo diferencial e integral e foi membra honorária da Universidade de Bolonha.”
 
Na verdade, Maria Gaetana Agnesi falava grego fluentemente com 11 anos e aos 13 anos de idade já dominava o hebreu, francês, espanhol, alemão e latim.
 
Com 14 anos estudava a fundo a dinâmica dos projécteis e geometria avançada. Aos 15 anos o seu pai, que era professor de Matemática na Universidade de Bolonha (a primeira universidade do mundo), reunia em casa os maiores intelectuais de Bolonha do século XVIII para ouvirem Maria Agnesi defender teses de filosofia, e eram mais de 190 as teses que ela argumentava.
 
Começamos a ver que Maria Gaetana Agnesi era uma espécie de Mozart da intelectualidade.
O mais interessante é que, apesar de toda esta cultura intelectual e vida social, Maria Agnesi, uma mulher de grande oração, queria era mudar a sua vida e entregá-la toda a Deus. No entanto, o pai não a deixou seguir uma vida religiosa, obrigando-a a estudar matemática. Ela obedeceu mas passou a levar uma vida de grande recolhimento, onde além de rezar também estudava muita matemática e chegou mesmo a dar aulas.
Os frutos não ficaram para trás: como vimos, escreveu o primeiro livro onde se junta o cálculo diferencial ao cálculo integral e foi a segunda mulher do mundo a ter uma cátedra universitária (a primeira foi Laura Bassi, em Física)
 
Ou seja, Maria Gaetana Agnesi foi a primeira mulher do mundo a ter uma cátedra universitária em matemática.
 
O mais estranho é que o seu nome raramente é usado quando se fala do papel da mulher na ciência e na sociedade. Porquê? Bem, porque quando o pai de Maria Agnesi morreu, a sua vida finalmente mudou.

Continua a Wikipedia a explicar que ela “dedicou as últimas quatro décadas da sua vida a estudar teologia (especialmente patrística) e a trabalhos de caridade e ao serviço dos pobres. Isto extendia-se a ajudar os doentes, permitindo-lhes que entrassem em sua casa, onde ela construiu um hospital.[1]“

É melhor dizer isto de uma maneira mais simples: durante os últimos 40 anos da sua vida, Maria Agnesi dedicou-se a estudar a teologia dos Padres da Igreja (Sto. Agostinho, S. João Crisóstomo, etc…) e a servir os pobres, isto é, Maria Gaetana Agnesi tornou-se uma freira Católica.
 
E dizer que construiu um hospital em casa é uma forma subtil de dizer que, na verdade, ela fundou uma congregação de irmãs religiosas. Em 1738 fundou a Opera Pia Trivulzio, uma casa para os idosos de Milão, onde vivia com as irmãs da instituição [2].
 
O nome de Maria Gaetana Agnesi continua a dar que falar na História da Ciência moderna. Em 2001, um historiador do Institute for the History and Philosophy of  Science and Technology da Universidade de Toronto, Canadá, publicou pelaUniversity of Chicago Press um artigo chamado “Maria Gaetana Agnesi: Mathematics and the Making of the Catholic Enlightenment” com o seguinte Resumo/Abstract:
 

Maria Gaetana Agnesi (1718-1799) é conhecida como a autora do livro sobre cálculo que apareceu em Milão em 1748. Pela primeira vez uma mulher foi capaz de se estabelecer como uma matemática legítima e publicar o seu trabalho. Este estudo reconstrói a cultura científica e religiosa em que o livro apareceu e considera os aspectos menos conhecidos da vida e do pensamento de Agnesi. Defende que Agnesi foi um expoente principal do “Iluminismo Católico” em Itália e que a sua prática espiritual, actividade piedosa e ideias pedagógicas inovadoras influenciaram profundamente a sua abordagem à matemática. O estudo sugere que a cultura reformista do Iluminismo Católico providenciou as condições que permitiram umas poucas mulheres com talento aceder a forma privilegiadas de conhecimento e de vida social; pode ser um factor que explica a presença pouco comum de mulheres instruídas nas instituições científicas de Itália durante os inícios do século dezoito.

O artigo pode ser encontrado online aqui.
 
O caso de Maria Gaetana Agnesi é um dos muitos casos que mostra que não há nenhum conflito entre Fé e Ciência.
 
Nuno Castel-Branco
 
[1] Alic, Margaret (1986). Hypatia’s Heritage. 124 Shoreditch High Street: The Women’s Press. p. 138. ISBN 0-7043-3954-4.
[2] Ogilvie, Marilyn Bailey (1986). Women in science: antiquity through the nineteenth century: a biographical dictionary with annotated bibliography (3. print. ed.). Cambridge, Mass.: MIT Press. ISBN 0-262-15031-X.
 
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