A revolução sexual depois da pílula anticoncepcional e o lado sombrio dessa falsa liberdade.

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Aprendemos com Thomas Sowell que quando se trata de questões sociais, não há soluções definitivas, apenas “trade-offs”. Pensei nesse ensinamento ao ler Adam and Eve After the Pill, de Mary Eberstadt. Trata-se de uma leitura instigante mostrando o lado mais sombrio da revolução sexual que foi possível após a invenção da pílula anticoncepcional.

O lado positivo todos conhecem e repetem aos quatro ventos. A mulher é mais independente, não precisa ser submissa ao marido, os gays gozam de mais direitos e liberdade, muitos tabus acerca do sexo foram derrubados, etc. O problema é que a geração da década de 1960 prometeu mundos e fundos com toda essa libertação sexual que simplesmente não se concretizaram. Ao menos não para muita gente, principalmente nas camadas sociais mais baixas.

Sou da tese de que o pêndulo exagerou. Da era vitoriana mais repressora chegamos ao paraíso dos libertinos, onde “vale tudo” e quase não existem mais tabus para serem derrubados (à exceção, talvez, do incesto e da pedofilia, sendo que há controvérsias sobre o último). Por isso considero o livro importante para o debate sobre valores morais, ainda que não concorde com tudo.

A autora parece crer que não é irreversível o que aconteceu, e que seria viável recolocar o gênio na garrafa. Não só discordo disso, como não acho que seria tão desejável assim regressar aos tempos anteriores à pílula. Há conquistas reais. O que não nos impede, como já mencionei, de olhar e encarar o lado negro da coisa. Ele também existe.

Para Eberstadt, a situação é análoga ao ambiente ideológico da Guerra Fria. O fracasso comunista era um fato empírico, estava diante de todos que quisessem enxergar, mas ainda assim muitos, especialmente os “sofisticados” da elite, adotaram postura neutra quando não endossaram o regime. Ao menos o anti-anticomunismo foi muito forte: era coisa de reacionário condenar tal ideologia responsável pela desgraça de milhões de pessoas.

Havia uma vontade deliberada de desacreditar nas evidências do retumbante fracasso comunista. Para a autora, o mesmo ocorre hoje, só que com a revolução sexual. Inúmeros dados empíricos e pesquisas apontam para problemas graves provenientes da revolução sexual, mas a maioria insiste em ignorá-los ou fingir que não estão, de forma alguma, atrelados ao fenômeno em si.

Indicadores como taxas crescentes de divórcio, doenças sexualmente transmissíveis, consumo de drogas da juventude, casos de estupro, abortos etc., mostram que algo saiu pela tangente nessa promessa de paraíso após a libertação sexual. Estudos mostram, ainda, que as crianças, principalmente de baixa renda, são as que mais sofrem com esse cenário: apresentam menor probabilidade de desempenho positivo em várias medidas de qualidade de vida.

Eis algumas coisas que estudos e pesquisas demonstram estatisticamente: mulheres cujos maridos são os chefes de família (provedores) tendem a ser mais felizes do que outras mulheres; homens casados tendem a trabalhar e ganhar mais do que homens solteiros; promiscuidade na juventude parece estar fortemente relacionada ao fracasso educacional e problemas como uso de drogas e álcool; crianças (principalmente meninas) cujas mães são divorciadas ou solteiras têm maior probabilidade de sofrer abuso sexual em casa do que crianças com os pais biológicos casados; etc.

Tudo isso afeta, evidentemente, de forma desigual por faixa de renda. A revolução sexual costuma ser muito celebrada entre as pessoas mais “sofisticadas” da elite, mas seu custo maior recai sobre os mais pobres. Charles Murray mostrou bem isso em seu livro Coming Apart, e Theodore Dalrymple tem sido um autor incansável no esforço de expor a realidade nada glamourosa da vida nas comunidades pobres nos tempos modernos.

A outra vítima maior da revolução sexual, além das crianças, são as próprias mulheres. Quem precisa conviver com o aborto e ficar deprimida depois são elas; quem sofre o maior impacto financeiro no divórcio são elas; quem precisa normalmente educar os filhos quando o parceiro vai embora são elas; etc. Tudo isso, não custa repetir, tende a se agravar bastante quando falamos de comunidades mais pobres, onde a mãe solteira não desfruta de um exército de babás e empregadas para ajudá-la, não é, enfim, uma Madonna ou Jane Fonda da vida.

Outro efeito da revolução sexual é o que passou a ser chamado de “adultescência”: adultos cada vez mais agindo como adolescentes. A modernidade vendeu a ideia de que era possível praticar sexo livre à vontade sem pagar preço algum por isso. Os homens celebraram, claro. Muitos deles, porém, viram-se incapazes de sair da eterna adolescência, de assumir maior responsabilidade por suas vidas e de seus dependentes.

A explosão da pornografia é outro corolário disso. A autora faz uma curiosa, mas interessante analogia entre o tabaco na década de 1950 e a pornografia hoje. Os papeis se inverteram por completo. Havia um estigma moral que condenava a pornografia naquela época, enquanto o cigarro era amplamente aceito como a coisa mais natural do mundo, consumido em tudo que é lugar. Hoje ocorre o oposto: fumar é moralmente condenável, enquanto todos assumem que a pornografia é parte normal do cotidiano das pessoas, e que ninguém tem nada com isso.

Pesquisas e pareceres médicos, porém, mostram que há correlação entre o consumo crescente de pornografia e a perda de libido em relação a mulheres reais, quase sempre a própria esposa. Maridos desinteressados nas suas mulheres e esposas frustradas que fogem para o chocolate levam ao aumento da taxa de divórcio, que por sua vez afeta negativamente as crianças e as mulheres.

Viciados em pornografia existem em quantidade cada vez maior. Homens românticos, em quantidade cada vez menor. Esse seria o paradoxo do mundo pós-moderno: hoje é mais fácil do que nunca conseguir sexo (o que tem oferta abundante costuma ter baixo valor de mercado), mas o contrário parece ser verdade para o romance. Talvez este seja o enigma central para os homens e mulheres modernos: desejo por romance em uma época de fartura sexual.

O filósofo Roger Scruton, na mesma direção, apontou para o risco real da pornografia: aqueles que se tornam viciados nessa forma de sexo sem risco correm o risco da perda do amor, em um mundo onde somente o amor traz a felicidade genuína. Aqueles que substituíram todos os propósitos mais elevados pelo sexo hedonista invariavelmente encontraram apenas um grande vazio existencial: seres humanos não são como os porcos selvagens.

Ironicamente, a farta literatura sobre o assunto mostra que as feministas, líderes da revolução sexual, são as mais insatisfeitas com seus resultados práticos. Livros abundam sobre o sofrimento feminino na modernidade, sobre o descontentamento com o sexo, a reclamação de homens que não prestam e não tratam mais as mulheres com dignidade, etc. Em muitos casos, o subúrbio é retratado como um campo de concentração, os homens como estupradores, as crianças como um fardo intolerável e o feto como um parasita. Não há nada parecido do lado masculino.

Em resumo, a revolução sexual inegavelmente reduziu os laços familiares, enfraqueceu a própria instituição do casamento, e como vários estudos demonstram, tais laços são importantes para indicadores sociais e para a qualidade de vida das crianças. Isso faz com que o assunto não seja, portanto, apenas individual, e sim do interesse de toda a sociedade.

O livro termina mostrando que há movimentos de reação, principalmente por parte dos mais jovens, das vítimas dessa libertação sexual excessiva ou inconseqüente, aqueles que pagam justamente o preço dos lares destroçados. Uma espécie de Geração X Conservadora começa a surgir em alguns lugares, valorizando aquilo que seus pais não valorizavam mais: a família tradicional.

Ninguém sabe o que vai acontecer daqui para frente. Mas uma coisa parece inegável: a revolução sexual está longe de ter apenas um lado positivo, ou de ter entregado as promessas de felicidade feitas na década de 1960. Olhar abertamente para o lado negativo, portanto, é crucial para que excessos sejam podados e males sejam evitados. Há um elefante na sala e todos fingem que ele não existe. Passou da hora de falar sobre ele…

Autor: Rodrigo Constantino

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