Matemático italiano Piergiorgio Odifreddi comenta carta recebida do Papa emérito Bento XVI.

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Relato do matemático e lógico italiano Piergiorgio Odifreddi, ex-professor da Universidade de Turim e da Cornell University, em artigo publicado no jornal La Repubblica

Pouquíssimas pessoas no mundo, e Peirgiorgio é uma delas, podem compreender a surpresa e a emoção que se sentem ao receber na própria casa uma inesperada carta de um papa. Uma surpresa e uma emoção que não são arranhadas pelo fato de sermos não crentes, porque o ateísmo se refere à razão, enquanto a personalidade e os símbolos do poder agem sobre os sentimentos.

Para mim, essa surpresa e essa emoção aconteceram no dia 3 de setembro, quando o carteiro me entregou um envelope lacrado, contendo 11 páginas timbradas datadas de 30 de agosto, nas quais Bento XVI respondia ao meu livro Caro papa, ti scrivo (Mondadori, 2011). Uma resposta que me surpreendeu por duas razões. Acima de tudo, porque um papa leu um livro que, desde a capa, era apresentado como uma “luciferina introdução ao ateísmo”. E, depois, porque quis comentá-lo e discuti-lo.

Pouco depois da renúncia de Ratzinger, eu tinha aproveitado um amigo comum para pedir ao arcebispo Georg Gänswein se era possível entregar ao agora papa emérito uma cópia do meu livro, na esperança de que o pudesse ver. E, em seguida, em algumas ocasiões, foi-me dito no início que ele o tinha recebido e, depois, que o estava lendo. Mas que ele pudesse me responder, e até mesmo comentá-lo em profundidade, estavam além das razoáveis esperanças.

Abrir o envelope e encontrar nele 11 páginas densas, que iniciavam com um pedido de desculpas pelo atraso na resposta e uma oferta de agradecimento pela lealdade da discussão, era a realização do máximo das expectativas possíveis, em um mundo que normalmente não as realiza senão minimamente. E era também a satisfação de ver finalmente levados a sério, e não removidos, embora não compartilhados, os meus argumentos em favor do ateísmo e contra a religião em geral e o catolicismo em particular.

Por outro lado, certamente não foi por acaso que eu enderecei a minha carta aberta a Ratzinger. Depois de ter lido o seu Introdução ao Cristianismo, que me foi sugerido por Sergio Valzania, eu tinha entendido que a fé e a doutrina de Bento XVI, ao contrário das dos outros, eram suficientemente sólidas e aguerridas para poder enfrentar e sustentar muito bem ataques frontais. Um diálogo com ele, embora então imaginado apenas à distância, poderia se revelar, portanto, como uma obra estimulante e não banal, a ser enfrentada de cabeça erguida.

Escrevendo o meu livro como um comentário ao seu, eu havia tentado favorecer a possibilidade, embora remota, de que um dia o destinatário pudesse realmente recebê-lo. Portanto, eu tinha baixado os tons sarcásticos de outros ensaios, escolhendo um estilo de intercâmbio entre professores “iguais”, obviamente no sentido acadêmico da expressão. E eu tinha me concentrado nos argumentos intelectuais que eu podia esperar que manteriam viva a sua atenção, sem, contudo, renunciar a enfrentar de peito aberto os problemas internos da fé e as suas relações externas com a ciência.

A abordagem, evidentemente, não era equivocada, visto que alcançou o seu objetivo: que, obviamente, não era tentar “desconverter o papa”, mas sim expôr a ele honestamente as perplexidades, e às vezes as incredulidades, de um matemático qualquer sobre a fé. Analogamente, a carta de Bento XVI não tenta “converter o ateu”, mas contorce contra ele, honestamente, as mesmas simétricas perplexidades, e às vezes as incredulidades, de um crente muito especial sobre o ateísmo.

O resultado é um diálogo entre fé e razão que, como Bento XVI nota, permitiu a ambos confrontarmo-nos francamente, e às vezes até duramente, no espírito daquele Átrio dos gentios que ele mesmo tinha desejado em 2009. Se eu quis esperar algumas semanas para tornar pública a sua participação no diálogo, é porque eu queria estar certo de que ele não queria mantê-la privada.

Agora que eu recebi a confirmação, antecipo uma parte da sua carta, que, contudo, é muito longa e detalhada para ser reproduzida na íntegra, sobretudo nas seções filosóficas iniciais. Ela será reproduzida em breve em uma nova versão do meu livro, editada das partes sobre as quais ele decidiu não se deter e ampliada com um relato do nascimento e dos desdobramentos daquele que parece ser um unicum na história da Igreja: um diálogo entre um papa teólogo e um matemático ateu. Divididos em quase tudo, mas unidos ao menos por um objetivo: a busca da Verdade, com maiúscula.

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